quinta-feira, 25 de outubro de 2007

CARTA DE PRINCÍPIOS DO PT (anterior ao Manifesto de Fundação do Partido)

Carta de Princípios

Anterior ao Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores, a Carta de Princípios
foi lançada publicamente no dia 1º de maio de 1979.

A idéia da formação de um partido só dos trabalhadores é tão antiga quanto a própria classe trabalhadora.
Numa sociedade como a nossa, baseada na exploração e na desigualdade entre as classes, os explorados e oprimidos têm permanente necessidade de se manter organizados à parte, para que lhes seja possível oferecer resistência séria à desenfreada sede de opressão e de privilégios das classes dominantes.
Mas sempre que as lideranças dos trabalhadores e oprimidos se lançam à tarefa de construir essa organização independente de sua classe, toda sorte de obstáculos se contrapõe a seus esforços.
Essa situação vivida milhares de vezes em todos os países do mundo vem acontecendo
agora no Brasil. Começando a sacudir o pesado jugo a que sempre estiveram submetidos, os trabalhadores de nosso país deram início, em 12 de maio do ano passado (greve da Scania), a sua luta emancipadora. Desde então, o operariado e os setores proletarizados de nossa população vêm desenvolvendo uma verdadeira avalanche pela melhoria de suas condições de vida e de trabalho. A experiência dessas lutas tem como resultado um visível amadurecimento político da população trabalhadora e o crescimento, em quantidade e qualidade, de suas lideranças.
Esse rápido amadurecimento político pode ser visto claramente no aprimoramento das
formas de luta de que os trabalhadores têm lançado mão. O início das lutas é marcado por um período de greves brancas nas fábricas. Já os embates mais recentes, dos quais a greve geral metalúrgica do ABCD é o melhor exemplo, mostram a retomada, em toda a linha, das formas clássicas de luta: grandiosidade das assembléias gerais, a ação decisiva dos piquetes e dos fundos de greve.
Os trabalhadores entenderam ao longo desse ano de lutas que suas reivindicações mais
sentidas esbarravam em obstáculos cada vez maiores, e é por isso, dialeticamente, que vão sendo obrigados a construir organizações cada vez mais bem articuladas e eficazes.
Diante da força da greve do ABCD, os patrões e o governo precisaram dar-se as mãos para impedir o fim da política do arrocho salarial e o fim das estruturas semi-fascistas que
tangem nossos sindicatos. Os patrões usam de todos os meios a seu alcance para quebrar a unidade dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que se recusam a reconhecer os acordos obtidos no período das greves fabris. O governo desencadeia sua repressão: os sindicatos são invadidos e suas direções destituídas oficialmente, enquanto nas ruas a polícia persegue os piquetes e tenta impedir, pela violência, que os trabalhadores consigam local para se reunir.
Por seu lado, o apoio que os metalúrgicos conseguem dos demais trabalhadores, embora
seja suficiente para impedir que a repressão se aprofunde e faça produzir um recuo parcial, carece de maior conseqüência, devido, é claro, não à inexistência de um espírito de solidariedade, mas sim devido às limitações do movimento sindical e à inexistência de sua organização política. Tanto isso é verdade que as lideranças da greve são obrigadas a se escorar no apoio, muitas vezes duvidoso, de aliados ocasionais, saídos do campo das classes médias e da própria burguesia.
Não puderam os trabalhadores expressar de modo mais conseqüente todo o seu apoio aos grevistas do ABCD, e essa impotência tenderá a continuar enquanto eles mesmos não se organizarem politicamente em seu próprio partido.
É por isso que a idéia de um partido dos trabalhadores, ressurgindo no bojo das greves do ano passado e anunciado na reunião intersindical de Porto Alegre, em 19 de janeiro de
1979, tende a ganhar, hoje, uma irresistível popularidade. Porque se trata, hoje, mais do que nunca, de uma necessidade objetiva para os trabalhadores.
Cientes disso também é que setores das classes dominantes se apressam a sair a campo com suas propostas de PTB. Mas essas propostas demagógicas já não conseguem iludir os trabalhadores, que, nem de longe, se sensibilizaram com elas. Esse fato comprova que os trabalhadores brasileiros estão cansados das velhas fórmulas políticas elaboradas para eles.
Agora, chegou a vez de o trabalhador formular e construir ele próprio seu país e seu futuro. Nós, dirigentes sindicais, não pretendemos ser donos do PT, mesmo porque acreditamos sinceramente existir, entre os trabalhadores, militantes de base mais capacitados e devotados, a quem caberá a tarefa de construir e liderar nosso partido. Estamos apenas procurando usar nossa autoridade moral e política para tentar abrir um caminho próprio para o conjunto dos trabalhadores. Temos a consciência de que, nesse papel, neste momento, somos insubstituíveis, e somente em vista disso é que nós reivindicamos o papel de lançadores do PT.
O povo brasileiro está pobre, doente e nunca chegou a ter acesso às decisões sobre os
rumos do país. E não acreditamos que esse povo venha a conhecer justiça e democracia sem o concurso decisivo e organizado dos trabalhadores, que são as verdadeiras classes
produtoras do país.
É por isso que não acreditamos que partidos e governos criados e dirigidos pelos patrões e pelas elites políticas, ainda que ostentem fachadas democráticas, possam propiciar o acesso às conquistas da civilização e à plena participação política a nosso povo.
Os males profundos que se abatem sobre a sociedade brasileira não poderão ser superados senão por uma participação decisiva dos trabalhadores na vida da Nação. O instrumento capaz de propiciar essa participação é o Partido dos Trabalhadores. Iniciemos, pois, desde já, a cumprir esta tarefa histórica, organizando por toda parte os núcleos elementares desse partido.
1. A sociedade brasileira vive, hoje, uma conjuntura política altamente contraditória e, sob
muitos aspectos, decisiva quanto a seu futuro a médio e longo prazos.
Vista do ângulo dos interesses das amplas massas exploradas, desde sempre marginalizadas material e politicamente em nosso país e principais vítimas do regime autoritário que vigora desde 1964, a conjuntura revela tendências extremamente promissoras de um futuro de liberdades e de conquistas de melhores condições de vida. Dentre as tendências auspiciosas, destaca-se a emergência de um movimento de trabalhadores que busca afirmar sua autonomia organizatória e política face ao Estado e às elites políticas dominantes.
Esse é, sem dúvida alguma, o elemento inovador e mais importante da nova etapa histórica que se inaugura no Brasil, hoje.
Contudo, a par dos dados auspiciosos da conjuntura política, coexistem também perigosos riscos, que podem levar as lutas populares a novas e fragorosas derrotas. Aqui, cabe destacar que o processo chamado de abertura política está sendo promovido pelos mesmos grupos que sustentaram e defenderam o regime hoje em crise.
Com a evidente exaustão de amplos setores sociais com o regime vigente no país e com a crise econômica que abalou a estabilidade dos grupos dominantes que controlam o aparelho de Estado, os detentores do poder procuram agora, e até este momento com relativo êxito, reformar o regime de cima para baixo. Vale dizer, pretendem reformar alguns aspectos do regime, mantendo o controle do Estado, a fim de evitar alterações no modelo de desenvolvimento econômico, que só a eles interessa e que se baseia, sobretudo, na superexploração das massas trabalhadoras, através do modelo econômico do qual sobressai o arrocho salarial.
Já está demais evidente que o novo governo militar pretende manter a continuidade dessa mesma política econômica ditada pelo capital financeiro internacional, agravada agora pelos planos de austeridade e recessão que já se esboçam. Isso significa que o sofrimento, a miséria material e a opressão política sobre a população trabalhadora tenderão a se manter e aprofundar.
O que significa Estado de Direito com salvaguardas? O que pretendem com anistia restrita? O que visam com a propalada reforma da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] e a da Lei de Greve, urdidas secretamente? Qual o sentido da diminuição das penas previstas na Lei de Segurança Nacional e da preservação do espírito que informa essa mesma Lei?
Esses e tantos outros fatos indicam que o regime busca reformar-se tentando atrair para seu campo de apoio setores sociais e segmentos políticos oposicionistas, com vista a impedir que as massas exploradas explicitem suas reivindicações econômicas e sociais e, o que é mais importante, sua concepção de democracia.
Em poucas palavras, pretendem promover uma conciliação entre os de cima, incluindo a
cúpula do MDB, para impedir a expressão política dos de baixo, as massas trabalhadoras do campo e da cidade.
2. Essas afirmações não ignoram o fato de que o MDB foi utilizado pelas massas para
manifestar eleitoralmente seu repúdio ao arbítrio. Tampouco pretendem ignorar a
existência, entre seus quadros, de políticos honestamente comprometidos com as lutas
populares.Isso, no entanto, não pode impedir e não nos impede de apontar as limitações que o MDB – partido de exclusiva atuação parlamentar – impõe às lutas populares por melhores condições de vida e por um regime democrático de verdadeira participação popular.
O MDB, por sua origem, por sua ineficácia histórica, pelo caráter de sua direção, por seu
programa pró-capitalista, mas sobretudo por sua composição social essencialmente
contraditória, em que se congregam industriais e operários, fazendeiros e peões,
comerciantes e comerciários, enfim, classes sociais cujos interesses são incompatíveis e nas quais, logicamente, prevalecem em toda a linha os interesses dos patrões, jamais poderá ser reformado. A proposta que levantam algumas lideranças populares de “tomar de assalto” o MDB é muito mais que insensata: é fruto de uma velha e trágica ilusão quanto ao caráter democrático de setores de nossas classes dominantes.
Aglomerado de composição altamente heterogênea e sob controle e direção de elites
liberais conservadoras, o MDB tem-se revelado, num passado recente, um conduto
impróprio para expressão dos reais interesses das massas exploradas brasileiras. Está na
memória dos trabalhadores a conduta vacilante de parcelas significativas de seus quadros
quando da votação da emenda Accioly, da lei anti-greve e de outras medidas de interesse
dos trabalhadores.
Apegado a uma crítica formalista e juridicista do regime autoritário, o MDB tem-se
revelado impermeável aos temas sociais e políticos que tocam, de fato, nos interesses das massas trabalhadoras.
Amplos setores das elites políticas e intelectuais das camadas médias da população têm
afirmado que “não soou a hora” de se dividir a oposição articulada no interior do MDB,
afirmando que a democracia não foi ainda conquistada.
Rechaçamos com veemência tal argumento. Primeiro, porque em momento algum podemos aceitar a subordinação dos interesses políticos e sociais das massas trabalhadoras a uma direção liberal conservadora, de extração privilegiada economicamente. Segundo, porque não podemos aceitar que a frente das oposições se mantenha à custa do silêncio político da massa trabalhadora, único e verdadeiro sujeito e agente de uma democracia efetiva.
Tampouco consideramos que a existência de partidos políticos populares venha a contribuir para romper uma efetiva frente da luta dos verdadeiros democratas. O PT considera imprescindível que todos os setores sociais e correntes políticas interessados na luta pela democratização do país e na luta contra o domínio do capital monopolista unifiquem sua ação, estabelecendo frentes interpartidárias que objetivem conquistas comuns imediatas e envolvam não somente uma ação meramente parlamentar, mas uma verdadeira atividade política que abranja todos os aspectos da vida nacional.
3. O Partido dos Trabalhadores denuncia o modelo econômico vigente, que, tendo
transformado o caráter das empresas estatais, construídas pelas lutas populares, utiliza essas empresas e os recursos do Estado, em geral, como molas mestras da acumulação capitalista.
O Partido dos Trabalhadores defende a volta das empresas estatais a sua função de
atendimento das necessidades populares e o desligamento das empresas estatais do capital monopolista.
O Partido dos Trabalhadores entende que a emancipação dos trabalhadores é obra dos
próprios trabalhadores, que sabem que a democracia é participação organizada e consciente e que, como classe explorada, jamais deverão esperar da atuação das elites privilegiadas a solução de seus problemas.
O PT entende também que, se o regime autoritário for substituído por uma democracia
formal e parlamentar, fruto de um acordo entre elites dominantes que exclua a participação organizada do povo (como se deu entre 1945 e 1964), tal regime nascerá débil e descomprometido com a resolução dos problemas que afligem nosso povo e de pronto será derrubado e substituído por novas formas autoritárias de dominação – tão comuns na história brasileira. Por isso, o PT proclama que a única força capaz de ser fiadora de uma democracia efetivamente estável é a das massas exploradas do campo e das cidades.
O PT entende, por outro lado, que sua existência responde à necessidade que os
trabalhadores sentem de um partido que se construa intimamente ligado com o processo de organização popular, nos locais de trabalho e de moradia. Nesse sentido, o PT proclama que sua participação em eleições e suas atividades parlamentares se subordinarão a seu objetivo maior, que é estimular e aprofundar a organização das massas exploradas.
O PT não surge para dividir o movimento sindical, muito ao contrário, surge exatamente
para oferecer aos trabalhadores uma expressão política unitária e independente na
sociedade. E é nessa medida que o PT se tornará, inevitavelmente, um instrumento decisivo para os trabalhadores na luta efetiva pela liberdade sindical.
O PT proclama também que sua luta pela efetiva autonomia e independência sindical,
reivindicação básica dos trabalhadores, é parte integrante da luta pela independência
política desses mesmos trabalhadores. Afirma, outrossim, que buscará apoderar-se do poder político e implantar o governo dos trabalhadores, baseado nos órgãos de representação criados pelas próprias massas trabalhadoras com vista a uma primordial democracia direta.
Ao anunciar que seu objetivo é organizar politicamente os trabalhadores urbanos e os
trabalhadores rurais, o PT se declara aberto à participação de todas as camadas assalariadas do país.
Repudiando toda forma de manipulação política das massas exploradas, incluindo,
sobretudo as manipulações próprias do regime pré-64, o PT recusa-se a aceitar em seu
interior, representantes das classes exploradoras. Vale dizer, o Partido dos Trabalhadores é um partido sem patrões!
As tentativas de reviver o velho PTB de Vargas, ainda que, hoje, sejam anunciadas “sem
erros do passado” ou “de baixo para cima”, não passam de propostas de arregimentação dos trabalhadores para defesa de interesses de setores do empresariado nacional. Se o
empresariado nacional quer construir seu próprio partido político, apelando para sua própria clientela, nada temos a opor, porém denunciamos suas tentativas de iludir os trabalhadores
brasileiros com seus rótulos e apelos demagógicos e de querer transformá-los em massa de manobra para seus objetivos.
O PT não pretende criar um organismo político qualquer. O Partido dos Trabalhadores
define-se, programaticamente, como um partido que tem como objetivo acabar com a
relação de exploração do homem pelo homem.
O PT define-se também como partido das massas populares, unindo-se ao lado dos
operários, vanguarda de toda a população explorada, todos os outros trabalhadores –
bancários, professores, funcionários públicos, comerciários, bóia-frias, profissionais
liberais, estudantes etc. – que lutam por melhores condições de vida, por efetivas liberdades democráticas e por participação política.
O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo.
Um partido que almeja uma sociedade socialista e democrática tem de ser, ele próprio,
democrático nas relações que se estabelecem em seu interior. Assim, o PT se constituirá
respeitando o direito das minorias de expressar seus pontos de vista. Respeitará o direito à fração e às tendências, ressalvando apenas que as inscrições serão individuais.
Como organização política que visa elevar o grau de mobilização, organização e
consciência de massas, que busca o fortalecimento e a independência política e ideológica dos setores populares, em especial dos trabalhadores, o PT irá promover amplo debate de suas teses e propostas de forma a que se integrem nas discussões:
• lideranças populares, mesmo que não pertençam ao partido;
• todos os militantes, trazendo, inclusive, para o interior do debate partidário proposições de quaisquer setores organizados da sociedade e que se considerem relevantes com base nos objetivos do PT.
O PT declara-se comprometido e empenhado na tarefa de colocar os interesses populares na cena política e de superar a atomização e dispersão das correntes classistas e dos movimentos sociais. Para esse fim, o Partido dos Trabalhadores pretende implantar seus núcleos de militantes em todos os locais de trabalho, em sindicatos, bairros, municípios e regiões.
O PT manifesta alto e bom som sua intensa solidariedade com todas as massas oprimidas do mundo.
A Comissão Nacional Provisória
1º de Maio de 1979

Mensagem do Candidato a Presidente do PT-BH Diniz Santana

E AGORA, TRABALHADOR BRASILEIRO, O QUE FAZER?

Quando o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), que reunia lideranças sindicais foi dissolvido, militantes e sindicalistas foram presos aos milhares, enquanto os sindicatos oficiais sofriam intervenção governamental.
Em 1970 o renascimento de um movimento trabalhista organizado, expressado nas greves do ABCD paulista, colocava a possibilidade de uma reorganização do movimento trabalhista de forma livre da tutela do Estado, projeto este expresso na criação da CONCLAT, que viria a ser o embrião da CUT.
Originalmente, este novo movimento trabalhista buscava fazer política exclusivamente na esfera sindical; no entanto, a sobrevivência de um sindicalismo tutelado - expressa na reconstrução, na mesma época, do antigo CGT, agora com o nome de Confederação Geral dos Trabalhadores, forçaram o movimento sindical do ABCD, estimulado por lideranças anti-stalinistas da esquerda, como as de diversos grupamentos trotskistas, a adquirir identidade própria pela constituição em partido político - uma estratégia similar à realizada pelo movimento sindical na Polônia comunista de então.
Em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion em São Paulo, o Partido dos Trabalhadores foi oficialmente fundado por um grupo heterogêneo, composto por dirigentes sindicais, intelectuais de esquerda e católicos ligados à Teologia da Libertação.
O PT foi fundado com um viés socialista democrático, rejeitando tanto as tradicionais lideranças do sindicalismo oficial, como também procurando colocar em prática uma nova forma de socialismo democrático, tentando recusar modelos já então em decadência, como o soviético ou o chinês.
Desde a sua fundação, apresenta-se como um partido de Esquerda que defende o socialismo como forma de organização social. A ideologia espontânea das bases sindicais do partido - e a ação pessoal de lideranças sindicais, sempre caracterizou-se por uma certa rejeição das ideologias em favor da ação sindical como fim em si mesma.
O PT nasceu com uma postura crítica ao reformismo dos partidos políticos social-democratas.
Nas palavras do seu programa original : "As correntes social-democratas não apresentam, hoje, nenhuma perspectiva real de superação histórica do capitalismo imperialista".
O PT, em sua própria definição, sempre se pautou pela liberdade de opinião e pela disciplina partidária, sendo contra a idéia de ser um partido revolucionário centralizado dirigido por intelectuais.
A partir de sua base tradicional na classe operária urbana, o PT organizou-se mais como um aglomerado heterogêneo de núcleos temáticos, de forma antagônica a uma organização de base em células de tipo comunista, que tendiam a privilegiar a posição de classe dos filiados sobre seus interesses espontâneos ou afiliações não-classistas (por exemplo, o pertencimento a movimentos homossexuais, ecológicos, de base étnica e/ou identitária). Casos emblemáticos disto foram a ligação do PT, desde muito cedo, com o movimento agrário-ecológico dos seringueiros do Acre pela instalação de reservas extrativista na Amazônia, então dirigido pelo ativista Chico Mendes e o forte apoio dado por esse partido ao MST.
À medida que o PT, durante a década de 1990, foi se acomodando na normalidade institucional da política brasileira, abandonando posturas simbólicas de rejeição daquilo que, na terminologia marxista, ele denominava "democracia burguesa" ele foi lentamente abandonando o caráter de uma "frente" informal de grupos de Esquerda para desenvolver uma poderosa estrutura burocrática permanente que o tornasse apto a participar, com chances de vitória, de embates eleitorais normais. Associe-se a isto a perda de ímpeto militante por conta das posições cada vez mais conservadoras adotadas pelo partido, e temos que o PT tornou-se finalmente cada vez mais dependente de fontes externas de fundos que viabilizassem suas campanhas eleitorais e a montagem de uma base de apoio parlamentar ao Governo Lula.
No dizer do intelectual marxista César Benjamin, desde 1990, " ... e José Dirceu começaram a esvaziar o potencial militante do PT para transformar o partido em uma máquina eleitoral tão formidável quanto inofensiva [...] dirigir o PT, nos últimos anos, foi gerenciar ambições".
Outros argumentam que o PT teria sido vítima daquilo que Robert Michels, no início do século XX, havia denominado "Lei de Ferro da Oligarquia": a sua direção burocrática teria se integrado à ordem burguesa simplesmente como um interesse corporativo a mais, desmoralizando o partido diante da opinião pública como um instrumento de transformação social em larga escala.
Esta é a história oficial do Partido dos Trabalhadores.

“Viva o socialismo!”
“Abaixo a ditadura!”
“Viva o marxismo!”
Estas eram as palavras que eu usava, em 1970. para pixar os muros do Fórum de Nanuque, município do interior de Minas Gerais. Naquela época, eu era membro da União Cultural dos Estudantes de Nanuque e uma das nossas atividades era promover maratonas sobre a História das Guerras e sobre a Revolução Russa.
Um comunista convicto não demoraria a ser descoberto durante o regime militar, numa cidade minúscula como aquela. Minha família era proprietária de uma livraria em frente ao Fórum, onde também funcionava o Cartório Eleitoral da Cidade. Eu estava neste Cartório quando um agente do DOPS entrou com fotos das pixações do Fórum, da Igreja e Delegacia nas mãos, dizendo que precisava encontrar aqueles comunistas. Contei o fato aos meus familiares, assumindo-me como autor das pixações. Preocupados, enviaram-me a Ubá.
Troquei o Fórum pela Pração São Januário, em Ubá. Os bancos ficaram pixados com as mesmas frases de ordem e em minutos, militares cercavam a praça em busca dos comunistas. Ao deparar-me com o o agente do DOPS que havia mostrado as fotos da pixação de Nanuque, abandonei a pixação e passei a dedicar-me à leitura “subversiva”, ao estudo do comunismo.
Mudo-me para Belo Horizonte e me torno comerciário, funcionário das Casas Martins. Em 1974, sou aprovado e classificado em concurso da CEMIG para o cargo de auxiliar de almoxarifado, e encarregado da entrega das guias florestais ao IBDF. Era o início de uma paixão que se estenderia pelo resto dos meus dias. Aluno do curso de Administração de Empresas, envolvo-me no Movimento Estudantil.
Três anos depois, conciliando o curso do Administração ao curso de Direito, uno-me a outros colegas e disputamos o CAAP como o slogan “Universitários, depois de formados, devem pagar à sociedade o ensino recebido”. Somos taxados de direitistas e não conseguimos vencer as eleições. Naquela época, eu era membro da OSI (Organização Socialista Internacional), que retirou-me do Movimento Estudantil e apresentou um caminho longo a ser trilhado. Um caminho árduo, mas repleto de conquistas.
O Sindicato dos Eletricitários (Sindieletro) era controlado pela CEMIG e minha missão seria convencer meus colegas a participarem de reuniões clandestinas para politização da categoria e posterior participação ativa nas discussões e decisões das Assembléias do Sindicato. Assim começou minha trajetória como sindicalista.
Em 1979, conheço a Carta de Princípios, documento lançado antes do Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores. O sonho de todo sindicalista era não só a independência dos sindicatos, como um partido que representasse todas as categorias de trabalhadores brasileiros. Ao ler a Carta, convenço-me, definitivamente de que chegara o momento de praticar todo conhecimento adquirido com as leituras “subversivas”. Somente um partido cujo documento propunha a transformação da sociedade via explorados, poderia gerar igualdade e conter o imperialismo capitalista.
Em 1980, tão logo se torna partido, insiro-me no PT como militante. O movimento sindical e a construção do Partido dos Trabalhadores, a Construção da CUT passam a tomar o meu tempo disponível para a família e os estudos. Em 1983, abandono o curso de Direito (retomado anos depois) para dedicar-me exclusivamente ao Sindieletro e ao meu partido e a CUT. Montamos a Comissão de Base do sindicato para discussão de propostas sindicais que seriam o início da intervenção nas Assembléias.
Em 1986, candidato-me ao cargo de Deputado Estadual, pelo PT, para auxiliar o partido no voto de legenda.
Em 1987, montamos a primeira chapa “Energia na Luta” formada por eletricitários para direção do Sindieletro, vencemos as eleições em franca oposição ao governo estadual da época. Era o início da luta efetiva a favor de melhores condições laborais para os eletricitários (segurança do trabalho, melhores salários, organização de base, saúde), da formação da Comissão de Mães (que conseguiu creche para os filhos das eletricitárias) e da discussão de filiarmo-nos à CUT (o que efetivamente ocorreu em 1989).
Enquanto isso, o PT crescia, se fortalecia e era maravilhoso contribuir para a formação de um filho tão amado! Em 1989, eu e outros companheiros lançamo-nos como candidatos a vereador, mas a força do partido à qual pertencíamos resolveu apoiar outro nome, numa reunião “a portas fechadas”.
Em 1995, o Sindieletro promove uma campanha política com o mote “A Volta dos 12 Demitidos”, queríamos que os eletricitários demitidos pelo governo estadual retornassem ao trabalho e a Participação nos Resultados da CEMIG, que se recusava a dividir seus lucros com os eletricitários. A categoria fez greve e os dirigentes Celso Amarante, Lúcio Guterres, Maurílio Chaves e eu, além do dirigente sindical Pedro Ursino Kretli, entramos em greve de fome, sendo que eu e o Maurílio resistimos 13 dias. Pedro Ursino Kretli foi obrigado a interromper a greve por recomendação médica, assim como outros. Todos nós saímos seqüelados daquela greve, mas conseguimos nossos objetivos.
Em 1996, sou vítima de um infarto e afasto-me da militância direta e do sindicalismo e retomo os estudos. A paixão pela política e o amor pelo PT, não me permitiram continuar ausente. Em 2002, volto a freqüentar as reuniões do partido. Mas alguma coisa havia mudado. Aquele não era mais o meu PT! Não era o mesmo filho para o qual eu me dedicara de corpo e alma! O filho que eu e milhões de trabalhadores brasileiros concebêramos havia crescido, é verdade, em contrapartida mudara suas características principais, havia se tornado muito flexível.
Entrei em pânico e comecei a pedir explicações para tantas mudanças. Onde estavam as massas, se éramos um partido das massas? Onde estavam os movimentos sociais, as mobilizações sindicais? Que silêncio era aquele dentro do partido? Que perda de identidade era aquela? Negligência total à Carta de Princípios, o que significava tudo aquilo?
Disseram-me que o partido havia se flexibilizado e que o meu discurso socialista estava ultrapassado. Dominava o PT a política conservadora, os conchavos, as alianças com as mentalidades neoliberais. Os meus antigos companheiros, os verdadeiros militantes, os homens que vi perderem noites de sono em greves infinitas, as mulheres que vi prepararem as marmitas para os seus operários, as crianças que cresceram ouvindo seus pais falarem sobre uma estrela branca que lhes garantiria um futuro digno e os jovens que se engajavam na causa socialista, já não guiavam os rumos do Partido dos Trabalhadores.
O que fizeram com o meu filho? O que foi que vocês fizeram com o nosso partido? Como puderam abandonar a Reforma Agrária? Como puderam misturar-se ao governo neoliberal? Como se esqueceram de que somos um partido de trabalhadores, que nos tornamos responsáveis pela vida de milhões de brasileiros quando nos propomos a representá-los fosse qual fosse o governo em vigência?
Estamos no governo! Mas não temos poder! O poder tem que emanar do povo e não das autoridades, dos banqueiros, dos grandes empresários, do capital. Somos o PT! Somos trabalhadores e trabalhadoras que continuam oprimidos, explorados!
Continua a desigualdade social. Quilombos urbanos, cinturões periféricos (dêem-lhes o nome que quiserem, mas continuam sendo FAVELAS), crescem dia após dia e milhares de trabalhadores se amontoam em barracos, em ruas e becos poeirentos, sem dignidade alguma. Pais e mães saem para trabalhar, deixam seus filhos em escolas integrais (isso quando há vagas) que não recebem a infra-estrutura adequada para torná-los cidadãos, ou os deixam sozinhos por falta de creches.
Pensam que acredito na urbanização do Aglomerado da Serra? Pensam que não sei o quanto valerá, no futuro, um lote aos pés de uma Serra que só existe do lado que pertence a Belo Horizonte? Basta olhar as fotos, compará-las. Três visões da Serra do Curral: uma do lado da MBR, outra dos palacetes do Mangabeiras e outra do Aglomerado da Serra. Quanto valerá o metro quadrado do Aglomerado daqui há 20, 30 anos? Por que não urbanizaram as favelas mais violentas primeiro (Pedreira Prado Lopes, Cabana do Pai Tomás)?
O narcotráfico toma conta do país, o dinheiro sujo vindo da desgraça de centenas de famílias continua movendo a roda do capitalismo (acabem com o narcotráfico e assistam à queda de vários impérios capitalistas). Por onde entram as drogas? Quem negocia com os cartéis estrangeiros? E as armas? Quem as negocia com os fabricantes suíços, iraquianos? Os traficantes do morro? Querem que eu acredite que eles têm meios de fazê-lo?
Nossos jovens continuam em evasão escolar, fogem da escola sem qualidade, fogem da escola que nunca lhes abrirá um caminho. Continuam desempregados, despreparados, alienados. Os poucos que conseguem ingressar em uma universidade, o fazem conciliando escola e trabalho, tornam-se inadimplentes em poucos meses e são convidados a trancar a matrícula para o próximo semestre. São igualmente poucos os que conseguem bolsa via PROUNI ou que ingressam nas universidades federais e estaduais (e quando conseguem, em sua maioria são os beneficiados pelo sistema de cotas).
Cotas? É um absurdo ver nossos jovens brigando por cotas! Onde está o dinheiro destinado à educação? Íamos acabar com a corrupção, os desvios de verbas, não é isso mesmo? Em 2006, gastamos mais de R$ 6.000.000.000,00 apenas com o Senado e a Câmara de Deputados! Temos muito dinheiro. Somos tão ricos que podemos manter um dos legislativos mais caros do mundo! E não temos dinheiro para construirmos mais universidades públicas, para contratarmos professores qualificados para as nossas escolas públicas?
Nossas crianças estão se prostituindo! Quem não as vê na BR perto do Bairro São Gabriel, oferecendo-se aos caminhoneiros e demais freqüentadores da via? Enveredam-se no mundo das drogas cada vez mais cedo, servem de aviõezinhos, estão usando armas pesadas para proteção das bocas. Será que ninguém sabe disso? Será que ninguém vê isso?
Nossa saúde pública continua vergonhosa. Onde estão os R$ 160.000.000.000,00 do CPMF? Postos Médicos sem profissionais, sem médicos! Hospitais públicos sem equipamentos, sem remédios, sem instrumentos adequados. Exames que demoram meses para ficarem prontos. Pessoas que morrem sem atendimento, doenças que se agravam por falta de assistência. Estamos selecionando a espécie humana, é isso?
Nossos idosos continuam “vagabundos” por falta de aposentadoria digna, de inclusão social, de inclusão digital. Como podem deixar de ser vagabundos se o mercado de trabalho brasileiro não absorve um terço dos jovens brasileiros? Velhos no Brasil para nada servem, ao contrário dos países desenvolvidos que nos matamos para copiar, não são estimulados, não são aproveitados em sua experiência de vida para a formação das nossas crianças, para uma reforma social profunda.
Que fizeram com você, PT? Como calaram a sua voz? Como reduziram-no a uma figura representativa, você que era a própria representação das massas, dos marginalizados pelo capital?
E esses conchavos, essas “parcerias”, esse “amigo americano”, esse arrocho salarial, essas alianças oportunistas, quem ensinou você a fazê-los?
E essa corrupção, de onde veio? Das novas mentes que traçam a sua nova estratégia? Dos novos rumos flexibilizados que você tomou? Ou da epidemia anti-ética que corrompeu antigos socialistas?
Não fomos nós, os sindicalistas, os trabalhadores, o povo que acreditou em você, o povo que construiu você quem corrompemos a sua Carta de Princípios. Não fomos nós quem deseducamos você, quem vulgarizamos você.
Retome a sua posição de partido! Erga-se! Mova-se!
“Viva o movimento social!”
“Viva a política das massas!”
“Abaixo a covardia!”
“Fora usurpadores do partido!”
Dizem que o meu discurso é esquerdista, que sou um sonhador idealista. Dizem que estou velho demais para reerguê-lo, para limpá-lo dos carrapatos que sugam as suas forças. Dizem que não sou flexível, que não sei “dar jeitinhos”, que não sei agradar inimigos para obter vantagens para o partido. Dizem que sou socialista demais, povão demais, petista demais.
Têm razão. Não faço conchavos indecentes, não consigo sorrir para quem massacra trabalhadores, não dou tapinhas nas costas de quem prostitui o meu partido.
Eu ajudei a conceber esse filho. Suporto as chacotas a respeito da sua realidade atual. Não abro mão das nossas conquistas. Quero o meu filho de volta, mesmo drogado, mesmo prostituído, mesmo humilhado! Assim como eu, outros pais do PT estão dispostos a recuperá-lo, a desencardir a estrela branca, a lavar a sujeira e recomeçar a luta, a militância, as greves de fome, os piquetes, os protestos, as pichações, os movimentos sociais abandonados.
Vocês querem acordos? Farei um acordo: devolvam-nos o que é nosso e lhes ensinaremos o que é trabalho sério.
Querem conchavos: Farei um bom conchavo: reunirei outra vez os sindicatos.
Querem vantagens para o partido? Darei uma vantagem ao PT: o retorno das massas exploradas, ignoradas, silenciadas, excluídas, traídas.
Querem um “jeitinho”? Darei um jeitinho: recuperarei a honra dos meus trabalhadores, retirarei suas mordaças, suas amarras e então vocês verão o PT de volta.
Querem liberalismo? Darei liberdade: liberdade de protesto, liberdade de ação, liberdade de expressão, liberdade para voltarmos a representar o povo, custe o que custar.
É o meu retorno à pichação. Esse não é o governo do meu partido. Se o PT governasse, o parágrafo da Carta de Princípios, onde se lê: “O PT não pretende criar um organismo qualquer. O Partido dos Trabalhadores define-se, programaticamente, como um partido que tem como objetivo acabar com a relação de exploração do homem pelo homem”, não estaria num papel esquecido, carcomido pelas traças, estaria estampado em manchetes de jornais, todos os dias, em todos os países do mundo.
Devolvam o nosso filho, vocês não souberam amá-lo como o amamos, não souberam encaminhá-lo como planejamos, não souberam honrá-lo como o honramos.
SISTEMA INTERPRETATIVO DO PT HOJE
Alma – burguesia favorecida – ativa
Cérebro – Neoliberalismo – ativo
Corpo – militância socialista – inativo
Pés – trabalhadores desmoralizados, exilados, emudecidos, envergonhados – decepados
Eu sou Diniz Santana de Oliveira e convido você a retomar a direção do partido que criamos, que erguemos, que amamos e hoje sabemos vilipendiado.
SISTEMA INTERPRETATIVO DO PT QUE QUEREMOS
Alma – trabalhadores revigorados
Cérebro – social democracia militância ativa
Corpo – movimento sociais, transformação política – Carta de Princípios
Pés – firmes no chão para não esquecer outra vez as origens.
ESTATUDO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES, ART. 1°: “O Partido dos Trabalhadores (PT) é uma associação voluntária de cidadãs e cidadãos que se propõem a lutar por DEMOCRACIA, pluralidade, TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS, SOCIAIS, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, destinadas a ELIMINAR A EXPLORAÇÃO, A DOMINAÇÃO, A OPRESSÃO, A DESIGUALDADE, A INJUSTIÇA E A MISÉRIA, com o objetivo de CONSTRUIR O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO”.
AGORA, TRABALHADOR BRASILEIRO, RETORNE AO SEU LUGAR DE ALMA DO PT!
CUMPRA-SE O ART. 1° DO ESTATUTO! CUMPRA-SE A CARTA DE PRINCÍPIOS!